Poema 8
Duas rectas que se cruzam ,
Eis um ponto.
Esse ponto, em movimento,
Há-de ser recta também.
Essa recta e outra recta
Hão-de formar outro ponto,
Novo ponto, nova recta,
E sempre assim, sem remédio.
Reinaldo Ferreira
(1922 1959)
(Do Arquivo de Pedro Valdoy)
Poema 7
A Natureza espreitava
O desejo de meus pais.
E foi pedir ao destino
Que lhes cruzasse os caminhos
Que eles haviam de seguir.
Ah! pobre mãe!
Antes tivesses nascido
Toda crivada de espinhos,
Estéril como cardo seco!
Mas tinhas olhos de moira:
Um lírio branco murchou
E o teu ventre concebeu
Este farrapo que eu sou.
Reinaldo Ferreira
(1922 – 1959)
(Do Arquivo de Pedro Valdoy)
Poema 6
Olhos iguais, outro olhar,
Silêncios da mesma voz,
Memória vaga e lunar
Do Sol que fôssemos nós...
Assim erramos incertos,
Juntos, distantes, cansados,
Mordendo o pó dos desertos
Onde houve relvas e prados.
E a Vida escoa-se, enquanto
O tempo , alheio à vontade,
Desliza, remoto brando
Duma tranquila orfandade.
Ai de mim!
Que não pedi p´ra nascer
E sou forçado a viver!
Reinaldo Ferreira
(1922 – 1959)
(Do Arquivo de Pedro Valdoy)
Poema 5
Passos furtivos na escada
Da minha imaginação.
Sabendo-os frutos de nada
São reais com os que o são
Basta que os oiça e provocam
A minha insónia de assalto.
Se fujo, seguem-me, voam...
Se grito, gritam mais alto.
Por favor, bom senso - Não!
É resposta que eu não posso
De que serve a razão
Se não existe o que eu ouço?
Reinaldo Ferreira
(1922 - 1959)
Arquivo de Pedro Valdoy
Poema 4
Oh! vós, que dominais vossos instintos
Como se fossem cavalos!
Oh! vós que os amestrais, para exibi-los
Como se fossem ursos!
Oh! vós que, infantigáveis domadores de impulsos,
Exibindo-os, colheis aplausos, contratos e elogios!
Glória a vós! Glória a vós, represadores
Do caudal,
Que eu não domino,
Do real.
Glória a vós dominadores do natural!
Reinaldo Ferreira
(1922 - 1959)
(Do Arquivo de Pedro Valdoy)
Poema 3
Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada:
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
Dum par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.
Reinaldo Ferreira
(1922 - 1959)
(Do arquivo de Pedro Valdoy)
Poema 2
Se eu pudesse guardar os teus sentidos
Numa caixa de prata e de cristal,
Entre conchas do mar, búzios partidos,
Pequenas coisas sem valor real...
Se eu pudesse viver anos perdidos
Contigo, numa ilhota de coral,
Para além dos espaços conhecidos,
Mais longe do que a aurora boreal...
Se eu soubesse que o olhar de toda a gente
Te via, por milagre, repelente,
Que fugiam de ti como da peste...
Nem assim abrandava o meu ciúme,
Que é afinal o natural perfume
Da flor do grande amor que tu me deste.
Reinaldo Ferreira
(1922 - 1959)
(do Arquivo de Pedro Valdoy)
Poema 1
Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.
Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu,
Quero-a evasiva - nimbos e cerros -
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.
Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.
Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho
Mas como posso partir sózinho
Sem um cavalo de várias cores?
Reinaldo Ferreira
(1922 – 1959)
(Dos Arquivos de Pedro Valdoy)